No dia seguinte, segunda-feira, retornei ao condomínio com minhas duas malas e uma mochila. Levei também o dinheiro para o primeiro aluguel e depósito. Não tinha roupa de cama, nem tampouco de mesa, e apenas uma toalha de banho. Dei a grana para o homem, peguei o recibo, as chaves e o ouvi reiterando as normas ditas anteriormente: nada de drogas, festas, animais, som alto, visitas somente durante parte do dia, e mais outros detalhes do dia a dia do condomínio. Credo, quantas regras! Acho que quebrarei algumas. Pensei comigo mesma, com cara de séria, mas segurando um sorriso.
Minutos depois estava sozinha fazendo uma inspeção em meu novo lar. Era evidente a necessidade de uma faxina geral, porém faria isso somente no dia seguinte. Fiz uma lista das prioridades que compraria para abastecer e equipar a casa. Naquela tarde, retornaria ao hotel e passaria a noite lá. Como havia pago três diárias, teria até as 11h do dia seguinte para fazer o check-out.
Manhã seguinte (terça-feira)
Retirei meu dinheiro que estava no cofre do hotel e fechei minha conta. Peguei um táxi para Little Havana; seguiria a dica de um vídeo que assisti no YouTube sobre como abrir uma conta bancária nos Estados Unidos. O Carlos também havia sugerido e até recomendado um banco, o Wells Fargo. Fui a uma agência nas proximidades da minha residência. Foi necessário apenas o meu passaporte e um depósito de cinquenta dólares para abrir a conta; no entanto, eu deixei quase todo o meu dinheiro depositado e protegido. Recebi um cartão de débito (provisório; o definitivo eu receberia pelos correios) e ganhei algumas folhas de cheque.
Depois de resolvido o lance do banco, eu voltei a minha atenção para as compras de emergência; não tinha nada para comer em casa e nem os utensílios mais simples de cozinha, por exemplo: pratos, copos ou talheres. Faria uma compra pequena, pois voltaria de ônibus; adoro novidades e ainda economizaria uma grana. Além disso, dependendo de sua localização, pode não ser tão simples pegar um táxi. As cenas de filmes em Nova Iorque em que alguém grita "TÁXI" e vários carros param ao seu lado só existem no cinema. Ademais, não estava em Nova Iorque, né? Em Miami, geralmente você tem que ligar para alguma empresa de táxi ou usar um aplicativo do celular solicitando o serviço. Pensei que talvez eu precisasse comprar um carro para locomover-me com maior facilidade, porém deixaria a compra para um outro momento mais oportuno.
Fiz uma busca no Google e encontrei um supermercado da rede Sedano's nas proximidades; foi onde comprei o necessário para os primeiros dias e num volume viável de carregar nas mãos. Fui embora de ônibus, orientada pelo GPS. Segundo ele, eu desceria 2,5 km depois.
Ao descer na parada mais próxima do meu prédio, eu caminharia as quatro quadras restantes com as mãos cheias de compras.
Momentos depois, um carro show demais, conversível e branco, veio em sentido contrário e diminuiu a marcha, parando ao meu lado. O motorista era um cara próximo dos vinte e cinco anos, pardo de aparência latina. Perguntou se eu queria ajuda com as compras. Recusei gentilmente e falei que já estava chegando em casa. Continuei andando. A rua era de mão única; assustei-me quando ele veio de ré e ficou novamente ao meu lado. O cara tinha um jeitão desses membros de gangues de filmes americanos: camiseta regata, várias tatuagens, bigode e cavanhaque bem aparados, dando-lhe um visual másculo, porém cafajeste.
— Você é do Brasil? Perguntou enquanto seguia devagar com o carro, acompanhando meus passos, agora mais apressados, pois fiquei com medo daquele cara de aparência suspeita.
Respondi que sim, pois meu portunhol tornava minha origem evidente.
Eu era recém-chegada em um país estranho, cultura estranha, ainda estava bem no início da minha adaptação e não sabia em quem confiar. Já havia recusado sua ajuda e carona por mais duas vezes ao chegarmos à esquina da minha rua. Uma de suas outras perguntas era se eu estava morando em Miami; menti, disse ter vindo com meus pais somente a passeio, e entrei à direita.
Deus, o cara continuou me seguindo. Eu ainda não estava apavorada, pois suas maneiras e palavreado não eram vulgares nem indicativos de um comportamento bandido. Seu papo era educado — pelo menos ele se esforçava em sê-lo — e fazia convites para irmos tomar uma cerveja, um suco ou apenas um café. E se ele fosse um psicopata, tipo um serial killer? Que medo, pensei.
Felizmente cheguei em meu prédio e avistei o senhorio, que estava na entrada conversando com outro homem. Ele olhou sério para o cara do carro; o motorista, por sua vez, fez um gesto tipo quem bate continência e disse:
— Buenas tardes, Ramon! — e acelerou o carro, saindo fora.
O senhor Ramon (o cubano) nem respondeu ao boa tarde do cara. Perguntou se ele havia me molestado. Respondi que não; só ofereceu ajuda com minhas compras. Deu para perceber que ele conhecia o sujeito do carro e não ia com a cara dele. Pedi licença e fui para dentro; eu não queria saber da vida dos outros, ficaria na minha e de bem com todo mundo, dentro do possível.
Meia hora depois, eu saí novamente para ir a outro Sedano's, que ficava a três quadras de casa, mas no lado oposto ao que eu tinha ido antes. Compraria água mineral, produtos e material de limpeza. No caminho, trombei novamente com o cara tatuado; ele estava ao lado do carrão, defronte a um edifício antigo decorado com grafites estilo hip-hop e uma placa fazendo referência a uma academia de defesa pessoal. Era tarde demais para mudar de calçada. Gelei quando ele pegou um papel das mãos de um garoto que estava ao seu lado e veio em minha direção. Sua abordagem foi simpática e respeitosa, estendeu-me o papel; era um folder relacionado ao estabelecimento e às aulas ministradas. Comentou que era sócio e instrutor naquele negócio e apresentou-se como Héctor Alejandro Gonzáles, hondurenho. A simpatia continuou, ofereceu-me uma semana de aula grátis e insistiu para que eu entrasse, conhecesse o lugar e fizesse a inscrição para a semana free. Falei que estava atrasada e precisava fazer algumas compras urgentes. Voltaria com mais tempo em outra hora, prometi.
Foi um equívoco ter comentado sobre as compras; ficou óbvio que iria ao supermercado na próxima quadra. O cara não insistiu, disse que aguardaria ansioso a minha visita.
Enquanto caminhava pelos corredores do supermercado, minha preocupação era a de não pegar mais do que eu poderia carregar. Ao mesmo tempo, pensava naquele cara de traços marginais, todavia muito atraente; não que fosse bonito, mas ele tinha uma maneira peculiar de agir e um sex appeal impossível de ignorar.
Eu precisava parar de pensar com o sexo, pois acabava sempre entrando em roubadas. Gostaria de sentir apenas medo e não desejos quando antevejo uma situação de risco, e ser inteligente o bastante para afastar-me do perigo em vez de pular de cabeça. Seria ótimo se conseguisse envolver-me apenas com os caras bonzinhos que despertam em mim uma paixão… Pensando melhor, acho que isso seria um tédio. Amo adrenalina, e quanto mais, melhor.
Então alguém dirá: “E quando der errado e o erro for fatal?” Bom… essa possibilidade existe. Só espero já ter dado o meu recado se isso vier a acontecer.
Terminei de fazer minhas compras e senti um cheiro característico de chuva enquanto estava no caixa passando as compras. Fiquei preocupada por estar carregada de mercadorias novamente, apesar de não ter comprado nem a metade do que estava precisando com certa urgência.
Começou a chover forte quando eu tentei sair do mercado, porém nada está tão ruim que não possa piorar; adivinhem quem estava se aproximando defronte à porta de saída do supermarket? Ele, o Héctor Alejandro Gonzáles, todo garboso em seu poderoso possante, com a capota fechada naquele momento, evidente. O cara só poderia estar me seguindo, e até a natureza estava conspirando contra, pois o tempo que estava ótimo e com sol brilhando momentos antes, de repente, transformou-se em chuva.
A água começou a cair com intensidade; olhei para o céu e estava tudo escuro, o teto baixo e um vento para piorar. Choveria muito, imaginei. Fiquei parada próximo à saída do edifício. Deixei as compras no chão, já que o peso incomodava meus braços. Meu dia havia sido puxado desde a manhã; naquele momento estava cansada ao extremo.
Fiquei sob a marquise do mercado, torcendo para a chuva passar logo. Próximo a mim havia outras pessoas na mesma situação, entre elas uma garota parda de aparência latina com cerca de vinte anos. Era atraente de rosto, cabelos longos e castanhos, mas desleixada na aparência geral. Bermuda jeans, blusa tomara-que-caia de um branco encardido e que exibia com nitidez o contorno dos seus seios fartos. Tênis “podrinho” e aparência de dependente químico (noia). A doida correu debaixo de chuva em direção ao carro do Héctor. Toda oferecida, ela o encheu de elogios vulgares, dizendo como ele era gostoso na cama e macho de verdade, etc. Todos os mais próximos puderam ouvir a tentativa da garota de fazer o cara se sentir o fodão do pedaço; contudo, não deu certo, ele dispensou a oferecida com rispidez e sarcasmo. Disse para ela ir a pé e que um banho de chuva lhe cairia bem no momento. A garota não respondeu, parecendo temer o rapaz, e voltou para debaixo da marquise, obediente como uma cachorrinha mandada para se deitar pelo dono. No entanto, sua expressão não tinha nada de conformismo, e sim de revanchismo.
O hondurenho avançou mais alguns metros com o carro, parando pertinho de onde eu estava. Desceu e veio em minha direção.
— A chuva vai demorar a passar. Vamos lá, preciosa, não tenha medo, eu te levo em casa.
Dessa vez, a minha preocupação não era com o assédio do cara, mas com o olhar ameaçador da outra que foi dispensada. Contudo, se ela achou que eu recusaria a carona por causa de sua intimidação, enganou-se. Agora sim que fiz questão de ir com ele, e foi só para dar o troco na petulância daquela atrevida.
Disse para o cara que estava mesmo precisando de uma carona, visto que comprei coisas demais para carregar nas mãos. O cara foi gentil, levando as minhas compras para dentro do carro, porém algo em mim recomendava prudência no envolvimento com esse sujeito. Pedi aos céus para que não fosse um psicopata.
Dessa vez ele não precisou insistir; fui vencida pelo sentimento de vingança despertado em mim por aquela sonsa abusada. Também não consegui resistir a um chamado de perigo que poderia envolver prazer.
Durante o trajeto, ele foi cavalheiro, não fazendo mais nenhum convite para sairmos ou perguntas sobre minha vida; só falou da academia e do que eu aprenderia. A distância era curta e chegamos logo ao meu condomínio. Prometi visitá-lo no dia seguinte para fazer minha inscrição, pois ele havia feito uma explanação legal sobre as aulas ministradas, isso em dois minutos de conversa. Desci, peguei minhas coisas, dei um "hasta mañana" e ele se foi.
Novamente cruzei com o seu Ramon no hall de entrada; ele estava sozinho e falou comigo sobre o cara do carro. Disse que ele é hondurenho (eu já sabia, mas não falei nada) e não é gente decente. Não trabalha, mas está sempre com carros valiosos e na companhia de pessoas envolvidas em gangues e coisas ilegais. Muitas das tatuagens em seu corpo são típicas de detentos em presídios.
— Manténgase alejado de él, niña, tenga cuidado. — Em português claro, ele quis dizer: "Sai fora ou você estará entrando em uma roubada, garota."
Aceitei sua ajuda para levar os bagulhos escada acima; falei que ainda precisava comprar muita miudeza para a casa. Ele sugeriu o Walmart, pois lá eu encontraria de tudo para equipar uma casa.
Mais tarde, durante minha faxina, fiquei pensando: será apenas fachada a academia do Héctor? Ou o cubano está exagerando na dose por não gostar do hondurenho? Decidiria até o dia seguinte se faria a minha inscrição. Aprender a me defender seria uma boa ideia no momento, pois tem muitos caras e algumas minas folgadas que merecem umas porradas.
Continua…
Última revisão em: 29/05/2026.

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