terça-feira, 31 de março de 2026

Almas Gêmeas - Parte 29

<< JÁ FAZ BASTANTE tempo desde que recebi a oportunidade de retornar ao mundo dos vivos. Não conseguia determinar exatamente: “Provavelmente estou aqui há semanas”, imaginei. Na verdade, passaram-se meses. Estava prestes a enlouquecer com uma espécie de pesadelo que me infernizava repetidamente desde a minha transferência para esse corpo em coma, um pesadelo sobre o instante de terror ocorrido no acidente trágico com a minha família… E a minha morte no carro do resgate.

Sim, seria eternamente grata pela segunda oportunidade de viver, mas já estava cansada da rotina de tentar ligar o “veículo” que não pegava, ou de percorrer o labirinto dando de cara com portas fechadas. Em meio a essa rotina, procurava preencher o tempo com recordações de momentos felizes vividos na companhia de pessoas agradáveis.
Um episódio curioso aconteceu um ano antes de nos mudarmos para o Vale do Paraíba. Era um período em que eu já lidava com o desconforto da menstruação; contudo, a imagem refletida no espelho me agradava: meus quadris mais largos, o bumbum mais volumoso e meus seios maiores. Os garotos do meu convívio notaram a evolução, mas os elogios eram apenas assédio bobo e me aborreciam. Eu não era como os demais jovens da minha idade e, aos poucos, comecei a me distanciar da turminha, optando por conviver com um grupo de garotas e rapazes mais maduros.

Em uma tarde de sábado, estava na pracinha, de bate-papo com a turma nova; um dos rapazes de um casarão próximo convidou a todos para uma festinha de despedida. Ele partiria para um intercâmbio de seis meses na Inglaterra.

Dos presentes, eu era a única novata na casa. Fui apresentada ao pai do Attila (o colega anfitrião).
— Bem-vinda…?
— Gisele — respondi.
— Nándor, ao seu dispor — disse ele ao estender-me a mão e depois deu-me os dois beijinhos. — Divirta-se, Gisele!

De todos os homens naquela casa, o mais charmoso era o coroa. Impressionante como era parecido com o homem que dançou com a Nicole Kidman, fazendo comentários provocativos, no filme “De Olhos Bem Fechados”.

Mais tarde, passada mais de uma hora e mais de uma taça de vinho ingerido, balancei demais o corpo ao acompanhar o ritmo de uma música e esbarrei no Attila. Cacete! Parte do vinho tinto em seu copo derramou em minha blusa clarinha.
Saí no gás para lavar e, já no interior do lavatório (antecâmara) que ele me indicou, tirei a blusinha. A porta não tinha trinco ou chave; achei melhor lavá-la no banheiro.
Eu só não esperava que, ao abrir a outra porta mais ao fundo, eu pegaria o seu Nándor batendo punheta. Instintivamente, cobri os seios com as mãos e blusa.
O bonitão continuou de boa, segurando seu pau duro. O danado deixou-me muito excitada; imaginei aquele cacete nas minhas mãos e caindo de boca nele, chupando faminta até o fazer jorrar.
Como se estivesse hipnotizada, continuei parada, sem tirar os olhos da cobra de cabeção rosado, e baixei os braços lentamente.
— Seus seios são lindos. Imagino que sejam doces e deliciosos — falou, sorrindo lindamente, continuando a alisar o pênis.
Restabeleci o contato com a torre ao ouvir a voz do homem e devolvi-lhe o sorriso, mirando em seus olhos sedutores.
— Vem, anjinho, não fique acanhada.
Sem pensar no risco de ser flagrada, deixei a blusa no cabide da porta e fui juntar-me a ele; minha boca já estava aguando por aquele pau grande e apetitoso.
Minhas atitudes foram ligeiramente acanhadas diante dos elogios do homem maduro, de postura altiva e super sedutor. Deixei-o tomar a iniciativa de conduzir minha mão em seu membro.
— Nossa! É bem grandão, mas bem macio — falei ao acariciá-lo com uma mão, depois com as duas.
Ajoelhei-me aos seus pés e comecei a lamber, chupar e engolir o negócio com uma vontade incomum. O homem acariciava minhas costas nuas e seios, a princípio.

Quando sua respiração começou a ficar acelerada, segurou em meus cabelos e começou a foder em minha boca, sem forçar a barra. Ficou perceptível que ele estava a ponto de gozar. Ele tirou, mas continuei com a boca aberta, esperando que ele despejasse dentro, mas errou o primeiro tiro; o jato atingiu meu nariz e o segundo, a bochecha. Os próximos foram derramados sobre a minha língua.

Voltei a chupar seu pau, engolindo tudo que ainda saía dele, mas com um medinho ao imaginar o que ele faria comigo a seguir.
Ele permaneceu sentado no vaso tampado enquanto eu tirava o excesso de porra do meu rosto com papel higiênico.
Logo após, as mãos másculas prenderam meu corpo e sua boca provocou delícias em meus seios. Deixei-me levar, mesmo ainda sendo tecnicamente virgem, pois a única penetração sofrida até aquele dia havia ocorrido na casa do tio Agenor em nossa visita meses atrás. Ainda assim, não tinha certeza se fui possuída pelo meu tio-avô, por alguma entidade ou se tudo não passou de um pesadelo.
Naquele momento era real, estava acordada, apenas de pileque, mas completamente hipnotizada pelo homem que sutilmente começou a abrir o botão e zíper da minha calça jeans.
— Estou ansioso para ver a joia que você esconde aqui — disse ele, excitando-me ainda mais.
Minhas calças foi puxadas até os pés, enquanto minhas coxas e bumbum eram acariciados e ouvia sacanagens gostosas ditas sem pudor. Quando minha calcinha começou a descer, expondo meus pelinhos pubianos encharcados, meu tesão explodiu, queria livrar-me das roupas e sentar minha boceta em seu cacete.
No entanto, ao ouvir vozes se aproximando, percebi a loucura que estava fazendo. O homem arrumou sua roupa, sugeriu que eu trancasse a porta e foi embora.
Ao lavar meu rosto e, em seguida, a blusa, experimentava sentimentos contraditórios: frustração por não ter transado e alívio por não consumar a loucura.
“Alívio, nada; eu desejei loucamente ser penetrada pelo coroa. Além disso, gostaria de agora estar saboreando os prazeres ainda emanando do meu corpo e sorrindo feito uma boba.” Falei comigo mesma.

Ao retornar ao convívio da turma, aparentemente, minha longa ausência não foi notada. Foi melhor assim.
Apesar do desejo, não retornei ao banheiro e não encontrei o coroa novamente naquele dia.


***


Despertar do Coma

Voltando a atenção ao corpo em coma, certo dia, enquanto praticava minha rotina de mover-me pelos corredores do labirinto escuro, empurrando portas na tentativa de sair dali, tive uma surpresa maravilhosa: uma das portas cedeu levemente e a claridade entrou pela fresta aberta, iluminando o ambiente. Foi mágico e fez-me vibrar de esperança. À medida que fiz pressão com as mãos, a danada cedeu lentamente até chegar ao ponto em que minha alegria se tornou infinita; havia despertado do coma.

Os momentos seguintes foram de uma emoção indescritível; de repente, senti por completo o corpo que eu ocupava e tive a nítida sensação da presença da minha irmã Giovana; era como sentir ela me abraçando. Meus olhos marejaram com a emoção, tentei olhar ao redor, mas meu corpo atual tinha uma enorme limitação para executar movimentos; ainda assim consegui enxergar e julguei estar no interior da UTI de um hospital.
Fragilizada e debilitada, morria de dores ao tentar me mexer. O bom senso ordenava-me para ficar o mais quietinha possível. Fiquei assustada e ansiosa para falar com alguém.
Cadê o pessoal do hospital? E como estarão meus pais e minha irmã? É noite ou dia? Por que não consigo falar?

Aproveitei o tempo que permaneci sozinha para chegar a algumas conclusões; uma delas era muito bizarra: eu e minha irmã morremos e minha alma se transferiu para o corpo dela, restabelecendo-lhe a vida. Isso explicaria a sensação absurda da sua presença em mim.
Lembrei-me com detalhes do dia da colisão; algo inexplicável aconteceu dentro da ambulância quando a Giovana entrelaçou seus dedos nos meus. Uma força estranha fundiu-me a ela, como se o laço de irmãs nos atraísse como ímãs. Ao pressionar sua mão, minha sensação era de estar sendo transferida para o interior dela, enquanto meu corpo se apagava lentamente.
Nossas mentes fundiram-se por um instante fugaz, mas suficiente para alegrar-me com seu pedido de perdão. Ela acessou minhas lembranças dos momentos terríveis que passei nas mãos dos bandidos do instituto, uma tortura suportada por mim somente com a intenção de proteger a todos nós da família.
Infelizmente, aquele momento de magia durou apenas míseros segundos; deixei de ouvir a mente da caçula, como se ela tivesse desaparecido como pó aspirado por uma força centrífuga.
Daquele ponto em diante, vaguei pelo labirinto escuro até acordar do que parecia ter sido um sonho surreal, complexo demais para minha simplória compreensão da vida.
Tentava assimilar o acontecimento; meu espírito, força vital, consciência e tudo isso aí que chamam de alma estavam dentro do corpo adormecido da minha irmã. Disso agora eu tinha certeza.
Meu estado psicológico estava um caos, e sofri com a incerteza de tudo: para onde foi minha irmã? Eu ficaria ali, para sempre, caso ela não retornasse? E se a alma dela voltasse reclamando o corpo?

A enfermeira chegou algum tempo depois e, em seguida, o médico. Retiraram os aparatos de respiração artificial.
As horas seguintes foram de alegrias para enfermeiras, médicos e meu tio Armando. Ele chegou horas mais tarde e a tia Neide não veio com ele; ficou arrumando o quartinho o qual eu ocuparia na casa deles, segundo meu tio.
Eu mal conseguia balbuciar palavras, mas me fiz entender:
— Por que vai me levar para a sua casa, tio?
Foi nesse instante estranho que ele, na companhia do médico e da enfermeira, deu a pior notícia da minha vida: meus pais tiveram morte instantânea e eu (Gisele) morri a caminho do hospital. A tristeza por perder meus pais, ainda mais sabendo que indiretamente a culpa foi minha, era uma dor insuportável. Por outro lado, eu não sabia como reagir à notícia da minha morte; era muito mórbido e incompreensível.
Eles não sabiam que estavam interagindo comigo no corpo da Giovana. Algo em mim alertava que era prudente manter em segredo, pelo menos por enquanto.

A previsão de alta ainda parecia distante, então pude refletir à exaustão, sentindo o tempo todo a presença da minha irmã. Durante o período de “incubação”, idealizei hipóteses e surgiram perguntas difíceis de responder: e se a alma dela retornar? Como ela reagiria? Nós duas teríamos o controle do corpo? E se eu revelar para todos que é a minha alma no corpo da Giovana? Com certeza seria considerada louca, mas, se acreditassem, o risco era virar cobaia em estudos científicos ou, pior, poderia ser exorcizada.

Não me faltava tempo para pensar bobagens; comparei a situação com um computador travado, que só voltava a funcionar após ser reinstalado o sistema operacional. Eu era o novo sistema e minha memória eram os novos arquivos.

Atormentava-me a morte do Roberto; fiz a escolha errada ao roubar os equipamentos na tentativa de desviar o foco da verdadeira intenção. Deveria ter retirado apenas o HD e os cartões de memória. Mas como eu iria adivinhar que havia um rastreador? O jornalista era mais experiente e não comentou nada semelhante a essa possibilidade. Resta-me agora conviver com a dor.

Ao ponderar sobre tudo que havia pensado a respeito anteriormente, inclusive sobre o acidente, estava segura de termos sofrido uma tentativa de homicídio para nos calar. Também uma represália proveniente dos líderes do universo sombrio e ilegal. A Giovana seria considerada uma ameaça? Se sim, estaríamos em perigo.
Será que o pessoal do site de denúncias está trabalhando com o material que entregamos a eles?

No feriado da Independência, fiz meu segundo treinamento na casa do Roberto, que tinha como objetivo abrir as fechaduras do ateliê com chaves-michas e me apoderar das provas dos abusos sofridos por mim. Nesse mesmo dia, o jornalista registrou em vídeo a minha denúncia; era semelhante ao relato que fiz no parque em nosso primeiro encontro. Dessa vez, dei mais detalhes e nomes das pessoas que conheci no universo do mal, além de informações capazes de revelar a identidade de outros, cujos rostos não consegui ver, devido às suas máscaras.
Era para ele enviar esse vídeo com as provas do crime. No entanto, nos antecipamos, e na sexta-feira, dia 9, o depoimento foi enviado para o site de denúncias horas antes da minha invasão ao ateliê, pois, se tudo terminasse terrivelmente errado, eles ainda teriam algo para investigar.

Após remover o material e trabalhar nele durante a noite no quarto de motel, ainda tomamos precauções enviando o HD com a cópia das imagens e a carta original da Susana. Logo após deixarmos o estabelecimento pela manhã, tudo foi entregue a um portador para ser repassado aos responsáveis pelo site. Eles já estavam cientes sobre o meu caso.

Ponderei sobre tudo isso e decidi pôr em prática uma ideia: fingiria ser a minha irmã caçula; seria fácil, pois estava no corpo dela. E simularia um estado de amnésia parcial, principalmente dos fatos relacionados ao instituto e ao vilarejo de Águas Turvas.

Continua.

Última revisão em: 06/04/2026.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Almas Gêmeas - Parte 28

<< IMEDIATAMENTE APÓS minha família ser intimada a comparecer ao instituto, a princípio presumi que seria para que eu fosse interrogada sobre o furto dos equipamentos do ateliê. Contudo, um acidente trágico aconteceu durante o trajeto de Mogi das Cruzes a Águas Turvas.
Foi desesperador ouvir o grito da mamãe, alertando sobre o impacto iminente, e de imediato uma figura grande e vermelha se aproximando, ágil como uma locomotiva sem freios, colidindo violentamente contra o nosso carro.

A partir desse ponto, o que narrarei não foi resultado dos efeitos causados pelas propriedades alucinógenas do chá que ingeri por meses seguidos. O que aconteceu comigo é algo que vai além da compreensão. Alguns chamariam de milagre, intervenção divina, obra sobrenatural, abdução ou algo do gênero. Como não encontrei um manual ensinando como lidar com fenômenos que a ciência talvez seja incapaz de explicar, então parei de tentar compreender e considerei o ocorrido como uma segunda chance ou uma nova missão.

Imagine essa cena: você sofre um acidente gravíssimo e entra em um estado de sono profundo. A princípio, você julgou que poderia ser eterno, mas, de repente, algo extraordinário acontece.
Tudo começou quando me dei conta de que estava em uma suposta ambulância de resgate em movimento, com a sirene acionada. A imagem angustiante do monstro vermelho colidindo com nosso carro continuava a atormentar minha mente. Subitamente, percebi o toque da mão da minha irmã Giovana, deitada ao meu lado, em outra maca. Ela entrelaçou seus dedos nos meus e algo emocionante aconteceu: nossas mentes se uniram, e pude sentir o amor que ela tinha por mim e receber seu pedido de perdão. Agora, ela tinha ciência de toda a história que envolvia nossa família e o instituto. Entendia que, entre as vítimas, eu fui a mais sacrificada.

Uma tristeza imensa abateu-me quando percebi que a natureza do gesto também engendrava uma despedida. Naquele momento, uma força estranha, que havia assumido o controle da minha vida desde que despertei na ambulância, fez-me entender que a força molecular em meu corpo se extinguia; comecei a sentir-me como se fosse apenas energia. Talvez seja isso que nomeiam de alma.
As surpresas se sucediam como num passe de mágica. Subitamente, fui transportada à velocidade da luz para uma espécie de outra dimensão, um lugar escuro onde não havia nada em nenhuma direção, mas algo me induzia a seguir em movimento. Embora não fosse possível ver ninguém, o local parecia estar fervilhando de pessoas, como se transitassem de um lado para o outro. Não tinha som, apenas uma leve vibração, semelhante à de um transformador de energia; era perceptível.

Algo emergiu das trevas, assemelhando-se à abertura de um poço gigantesco, com a largura de uma rodovia, e a entrada coberta com uma espécie de plasma incandescente, como uma cortina viva que pulsava freneticamente, lembrando lava vulcânica. O buraco de aparência quente me causou um medo inexplicável. Tudo o que eu queria era me afastar, pois me fizeram acreditar que essa entrada me conduziria ao mundo dos mortos com dois espaços distintos. Um dos espaços era o purgatório, que é um lugar onde aqueles que não foram dignos nesta vida enfrentam momentos penosos, caracterizados por uma mistura de punição e aprendizado. Outro espaço, se é que eu entendi direito, era somente uma sala de espera para as almas que aguardavam o momento de iniciarem uma nova vida.
Acima do buraco quente, a uma altura equivalente a um sobrado, havia outro túnel que parecia conduzir ao céu. A largura era tão ampla quanto. O plasma que revestia essa área emitia uma luz branca, suave e reconfortante. A sensação de paz era tentadora, intensificando o anseio de ir até lá. Imaginei que talvez ali estivesse o caminho para o que chamam de paraíso.
A mesma energia anterior me orientou sobre essa nova entrada: era um local onde passamos por uma formatação para começarmos uma nova vida. As almas saem de lá como se fossem uma folha em branco.

Imaginei que tudo poderia ser um sonho do qual logo despertaria. Porém, quando me senti sendo puxada para o poço de lava, tudo se tornou um pesadelo; era como se um ímã poderoso me estivesse atraindo. Estava muito perto quando a parte energética, que era meu corpo, começou a flutuar, subindo gradualmente, permanecendo na altura entre um ponto de entrada e outro, ou entre o sagrado e o profano, eu diria.
Sem conseguir vislumbrar qual seria o meu fim, só temia despencar dentro da lava nervosa, pois já antecipava o horror das queimaduras, mesmo desprovida de um corpo humano no momento.
Tentei lutar, mas faltou-me força; quis gritar, mas não tinha voz. Ainda me restou o bom senso de não ser hipócrita a ponto de fazer uma oração apenas naquele momento de desespero, uma vez que nunca fui religiosa. Estava ciente dos meus erros e acertos; afinal, foram minhas escolhas. Considerava-me uma pessoa do bem, vivendo em harmonia comigo mesma, dentro do possível.
Ao ser posicionada bem ao centro dos dois “túneis de plasma”, senti o calor infernal vindo de baixo e a brisa celestial vinda de cima. Naquele instante, meus poucos anos de vida passaram pela minha mente em segundos, como um flashback em hipervelocidade. Em 16 anos, fiz ou estive envolvida em muitas coisas e reconheço que poderia ter feito muito mais; contudo, é um período insignificante. Meu desejo sempre foi o de viver por muitos anos para descobrir novas experiências, conhecer pessoas diferentes e explorar outros lugares. Namorar bastante também estava nos meus planos e, quem sabe, me apaixonar, casar e ter filhos.

Mais uma vez, aquela energia que parecia preencher e dominar todo o universo físico e psíquico fez-me entender que eu tinha duas escolhas: seguir na direção da luz suave, onde passaria por uma espécie de formatação, esquecendo tudo que já experimentei e aprendi. Começaria uma nova vida do zero.
Outro caminho parecia uma espécie de reencarnação, porém, no corpo de outra jovem, pois não era possível retornar ao meu. Essa outra alma havia desistido da vida, abandonando à própria sorte o seu corpo enfermo em estado de coma.
Se aquilo era um desafio, aceitei com toda a minha gratidão; eu apenas desejava continuar vivendo no mundo que já conhecia e que ainda tinha muito a oferecer. Desejava retornar ao convívio das pessoas amadas e aproveitar a vida por muitos anos, pois adorava viver. Tentaria não flertar tanto com o perigo, dessa vez.

No momento seguinte, uma luz lilás apareceu entre um túnel e outro. Assemelhava-se a uma flor, um lírio desabrochando como o diafragma de uma câmera fotográfica abrindo-se passo a passo. Quando a abertura atingiu o máximo, fui puxada lentamente para dentro até atravessá-la e, novamente, viajei à velocidade da luz, parando no interior de um corpo humano. Milagrosamente, recebi a oportunidade de retornar ao mundo dos vivos, substituindo essa alma desertora. Esse novo corpo estava muito ferido, mas ainda vivo e, aparentemente, com todos os órgãos.

Vida Após a Morte.

Na minha humilde opinião, acredito que não tenha chegado a minha hora de morrer; foi algum erro do “estagiário”. Quando alguma espécie de supervisor ficou sabendo, provavelmente me mandou de volta; todavia, como o meu corpo ficou imprestável, minha alma foi alocada no de outra pessoa, que se recusava a continuar vivendo.

Sentiria saudades do meu antigo corpo, amava cada detalhe, principalmente as covinhas de Vênus. Mas continuava grata e, após conseguir despertar esse corpo, eu procuraria ser sempre coerente com as minhas convicções, ou seja, não agir contra a minha concepção de certo e errado, pois a morte não é o fim de tudo, percebi; há outros ciclos a serem cumpridos. Acredito que as pessoas dignas, empáticas e generosas não são jogadas no buraco quente, que deve ser um inferno.

A satisfação sentida ao retornar para esse mundo amenizou o incômodo de continuar na escuridão. Não sabia quando era noite ou dia; após o milagre, a minha preocupação era continuar viva. E, embora houvesse o transtorno de despertar em um corpo em estado de coma, a minha expectativa de fazê-lo recobrar a consciência em algum momento era animadora. O desesperador era sentir tanto desconforto em razão da enfermidade e a impossibilidade de interagir com o corpo inerte.
Às vezes, a sensação era de ter ganhado um carro cuja ignição não funcionava. Na maioria das vezes, tinha a impressão de correr por caminhos no interior de um labirinto, mas o final do corredor era sempre uma porta lacrada. Será necessária uma senha de acesso? Onde consegui-la? Ficava me questionando.
Sentia falta da energia, a qual me orientou na outra dimensão e não “falou” mais comigo; ainda assim, a percepção era de não estar sozinha e de fazer parte de algo de dimensões absurdas. No entanto, além das portas, só conseguia ver escuridão e ouvir o zumbido leve e estranho vindo de todas as direções.

Continuaria percorrendo o labirinto pacientemente até encontrar a saída; tempo livre não me faltava, sobretudo, para acreditar no despertar do corpo. Também para pensar nos momentos já vividos.
Por exemplo: a correlação do fatídico acidente sofrido pela minha família com uma carta que encontrei há duas semanas entre as páginas de um dos livros que o mestre Vilânio obrigava-me a ler. O manuscrito era um desabafo ou acusação de alguém chamado Susana. Até dois meses antes da minha admissão, essa jovem havia sido a modelo do mestre.
Serei fiel ao tema escrito por ela, mas à minha maneira, pois não me recordo de todas as frases na íntegra.

Ao mestre Vilânio.
Sua última tentativa frustrada de fazer sexo comigo, ou seja, de abusar do meu corpo, reduziu ainda mais o pouco respeito que eu ainda tinha pelo senhor. E se me causou desprezo e vergonha alheia a sua cena patética, por outro lado, eu fui compensada ao passar uma noite de amor maravilhosa com o Robson. Ele era um homem de verdade, o homem que eu amo e que fez sexo comigo por horas, saciando todos os meus desejos. Aproveitamos o alojamento ainda desocupado para ter nossa noite romântica.

Aqui, farei um adendo para explicar o motivo do alojamento vazio e já continuo com a carta. As aulas no ateliê tiveram início no dia primeiro de fevereiro do referido ano. Ao passo que os estudantes dos demais departamentos do instituto só retornaram no dia sete. Foi o meu caso, pois, naquele mês, eu frequentava apenas o ensino médio. A minha trajetória no ateliê ainda não havia começado; a vaga era ocupada pela Susana. Ela estudava no colégio técnico durante o dia, fazia o treinamento remunerado com o mestre Vilânio à noite e dormia no alojamento. O Robson — seu namorado secreto — cursava artes plásticas no ateliê durante o dia. Não dormia no alojamento. Isto é, soube pela carta que não era bem assim, né?

Sigamos com a carta e a narrativa da Susana:
Assim que saí desse ateliê nojento, tomei um banho para tirar o odor fétido deixado em mim pelo senhor e aguardei meu amor, toda cheirosinha e só com o conjuntinho de dormir.
Minutos depois ele chegou e se acomodou em minha cama, aconchegando-se comigo e, após um beijo ardente e cheio de desejos, meu shortinho começou a deslizar por minhas pernas e sua língua, lábios e dedos brincaram deliciosamente em minha vagina. Talvez a sua ignorância machista não compreenda o quanto uma mulher adora essas preliminares.
Ele não teve pressa, tampouco nojinho quando gozei em sua boca. Evidente que retribuí também o chupando gostoso, mas ele guardou o auge do seu prazer para mais tarde, pois tínhamos toda a noite pela frente.
Em instantes eu estava de quatro sobre minha cama, e o pênis rígido como ferro, inteirinho em minha boceta, indo e vindo, arrancando meus gemidos, abafados pelo travesseiro.
A propósito, ele usou preservativo e saiu cheio de dentro de mim, após quase me desfalecer de prazer.
Durante os cinco minutos de relaxamento para recuperar o fôlego, ele, de conchinha comigo e massageando meus seios, sussurrava em meu ouvido as sacanagens suaves que eu amo ouvir nessas horas. Seu membro entre minhas pernas ganhou nova rigidez, excitando-me ainda mais que antes. Direcionei a cabeça do volume para a entrada da minha vagina; ele ergueu a minha perna e transformou o momento da penetração em algo maravilhoso. Senti-me flutuar ao receber seus golpes potentes e prazerosos. A conexão dos nossos corpos era perfeita e o instante vivido era divino.
Foi super gratificante chegarmos ao gozo simultaneamente, com ele uivando e eu latindo como uma cadela, ignorando o perigo do flagrante e, dessa vez, a falta do preservativo. Eu tinha ciência, mas pensaria no problema depois; no momento, meu único desejo era continuar fodendo gostoso com meu homem.
A melhor parte da minha vida foi naquela noite de sexta-feira, nos braços do Robson. E a segunda-feira foi o dia mais triste e difícil, quando recebi a notícia do falecimento do meu amor em um acidente de carro. Tenho certeza de que foi algo encomendado por pessoas tão desprezíveis e repugnantes que nem o inferno será castigo suficiente.
Passadas três semanas, recebi o exame com a confirmação da minha gravidez. Isso, por si só, seria uma catástrofe em minha vida. No entanto, poderia ser pior; o agora feto poderia ser seu herdeiro, senhor Vilânio. A sua ejaculação precoce, despejando seu sêmen antes mesmo da introdução, pode ter me engravidado, pois, tentando saciar o seu ego de macho, ainda tentou copular comigo ao enfiar essa coisa melada e mole em minha vagina. Serviu apenas para complicar a minha vida.
Preocupe-se com outras coisas e não com a paternidade, pois jamais pediria isso para um escroto como você; desejei apenas que soubesse dos fatos, já que não estarei aqui para contar pessoalmente.

Até nunca mais, e apodreça no inferno, seu verme!

Susana.

No final, ela deu a entender que estava se despedindo dessa vida. E aconteceu realmente; ela engoliu um monte de comprimidos de tarja preta e não foi socorrida a tempo.
A carta era endereçada ao mestre; não sei o motivo de ela estar no livro. Mas ele não chegou a ler, ou então a teria destruído.
Contudo, ele ainda terá a oportunidade de ler, pois levei a carta e entreguei ao Roberto. Ele digitalizou e enviou uma cópia para o repórter do site de denúncias. A original foi enviada com o HD contendo a cópia das imagens. Será uma prova adicional contra a máfia.

Ao relacionar a tragédia de Roberto e Robson com a da minha família, fortaleceu em mim a certeza de que os bandidos usariam “acidentes” de carro como o método preferido para eliminar seus desafetos.

Continua.

Última revisão em: 06/04/2026.

domingo, 15 de março de 2026

Almas Gêmeas - Parte 27

<< Eu gostaria de acreditar que meu pai fosse mesmo capaz de matar alguns dos bandidos; porém, ele nem tinha uma arma e não teria tempo de arrumar uma, devido a dois carros, sendo um da polícia militar e uma picape preta, frearem bruscamente rente ao nosso portão.
A Giovana entrou correndo, seguida por quatro policiais fardados, dois homens de terno e a dona Odete. Eles invadiram o interior da nossa residência sem apresentar nenhum mandado de busca e apreensão.
Um dos homens, advogado do instituto, disse em tom grave e acelerado:
— Tenho um comunicado a fazer.
Meu pai tentou argumentar e reclamou da truculência e invasão de domicílio. Um dos policiais colocou a mão sobre a arma e disse em tom ameaçador:
— É melhor todos ficarem calmos e cooperarem; tudo será esclarecido em breve.
O advogado retomou a palavra, comunicando que houve um furto no instituto, mas o ladrão foi localizado por meio do rastreador embutido na câmera de cinema, que é um item valioso.
Gelei quando ele olhou para mim ao dizer "ladrão".
Ainda ele:
— Segundo a polícia rodoviária, o sinal rastreado surgiu em um veículo trafegando na Via Dutra em Jacareí. Quando o motorista se recusou a parar, iniciou-se a perseguição. O fugitivo perdeu o controle do veículo em uma curva acentuada e bateu forte na mureta de proteção.
O porta-voz da polícia informou que o condutor não resistiu ao impacto e veio a óbito antes de ser socorrido, e os equipamentos roubados foram recuperados no interior do veículo.
Meu Deus! Fiquei arrasada e sem saber como processar a trágica notícia; precisava tentar não demonstrar ter levado um golpe duro demais.
— A senhorita nos leve ao seu quarto — disse a dona Odete para mim e pediu para o segurança do instituto acompanhar-nos.
Fodeu! Pensei, apavorada. Eles já sabem da minha participação.
Mamãe protestou; ela estava muito abatida e inconformada com tudo isso. Disse que iria junto, mas foi impedida pela mulher truculenta.
Pedi para mamãe se acalmar; eu iria com eles e que ela não se preocupasse.

Dentro do meu quarto, com a porta fechada, fui obrigada a fornecer a senha do meu celular. Não seria problema, pois eu e Roberto nos precavemos, não trocando mensagens ou ligações.
O segurança havia iniciado uma busca pelo quarto; apanhou a caixinha vazia do cartão em cima da cama da Giovana e indagou onde estava; menti ao dizer que estava no meu celular. Contudo, não tardariam a encontrar o cartão com as imagens proibidas no aparelho da caçula.
A mulher ordenou que eu me despisse para examinar minhas roupas e que permanecesse em pé e com os braços ao longo do corpo. Enquanto isso, eles continuavam revistando cada centímetro do aposento. O homem, depravado, voltado em minha direção, fazia caras e bocas, enquanto olhava descaradamente para as minhas partes íntimas. Desviei o olhar e me perdi em meus próprios pensamentos.
A conversa do papai com o tio Agenor não foi a razão dessa invasão, pois não haveria tempo suficiente. O roubo foi descoberto muito cedo e, devido ao rastreador, foi possível identificar e capturar o Roberto. Não acredito que ele tenha morrido com o impacto contra uma mureta; esses monstros devem ter torturado meu parceiro para obter o que desejavam e, em seguida, eles o mataram. Pensei, aterrorizada e profundamente abalada pela perda do meu amigo.
Eu não tinha ideia do quanto sabiam do meu envolvimento. Para piorar, tampouco possuía um álibi que justificasse minha ausência no ônibus do instituto naquela manhã. Havia pensado sobre isso com antecedência, mas não quis envolver mais ninguém nessa história de horror, pois era extremamente perigosa. Eu estava cheia de razões. Agora, declararia que passei a noite com um namorado, recusando-me a informar quem ele era e onde estivemos.
— O que você está escondendo aí? — disse-me a mulher em tom ameaçador. O segurança tinha cochichado no ouvido dela um minuto atrás.
— Não escondi nada, senhora.
— Você acha que eu sou idiota, não é, menina? — Vira e se inclina sobre a penteadeira.
Ela me deixou ainda mais angustiada. Como poderia esconder algo estando nua? Qual é a finalidade desse espetáculo? Refleti.
Acatei e me debrucei sobre o móvel, ficando numa postura ridícula para uma situação tão séria. Já estava exausta de levar bola nas costas. Se tentassem me estuprar, eu faria o maior escândalo gritando por socorro.
— Abre as pernas, deixa eu ver o que você pôs aqui! — ordenou ao passar a mão em meu sexo.
— Não tem nada aí, senhora — falei, chorando.
Ela afastou minhas nádegas, abrindo meu rego. Pelo espelho, vi o reflexo do homem apreciando a cena.
Depois, enfiou a ponta do dedo na minha vagina e disse:
— É… Não tem nada aqui — disse ela, mas, ainda assim, foi mais fundo, mexendo seu dedo.
Por fim, concluiu:
— Pode se vestir.
Filhos da puta, pensei, deve ser um joguinho sexual desses dois nojentos.

Quando voltamos para a sala, a situação tinha piorado; todos os celulares e computadores da casa foram confiscados. Quando meu pai solicitou um mandado de busca e apreensão, os policiais ameaçaram sacar as armas, e o oficial falou sarcasticamente:
— Isso aqui é o nosso mandado.
— Vocês todos devem nos acompanhar, pois a direção pediu a presença da família. Serão colhidas informações para identificar eventuais conexões do invasor com algum membro do instituto — afirmou o advogado.
Papai tentou ganhar tempo, alegando o mal-estar da mamãe.
— Iremos daqui a uma hora — disse.
Ele parecia desconfiar que o negócio no instituto daria ruim. Eu tinha certeza disso.
— Ela pode ser atendida no ambulatório da instituição; estamos perdendo tempo — disse o advogado.
Não deu certo a jogada, ainda mais quando o oficial da polícia ordenou que entrássemos imediatamente no carro do papai ou nos fariam entrar.

Minutos depois, estávamos na estrada, indo de Mogi para Águas Turvas, acompanhando a viatura policial. O outro carro seguia atrás de nós.
Ao longo do percurso, no interior do carro com meu pai, minha mãe e Giovana comigo no banco de trás, entre várias outras coisas que disse, comentei:
— Para mim, será um alívio se a expulsão do instituto for a minha punição.
— Aposto que esse inferno tem a ver com o cartão imundo que a vadia tentou esconder — disse a minha irmã, apontando para mim. A discussão esquentou e todos começaram a falar ao mesmo tempo. A Giovana não esteve presente na minha conversa com meus pais; ela tinha apenas um conhecimento superficial e limitado da situação. Minha mãe tentava fazer a caçula compreender que eu não tinha culpa. Eu contava a ela que havia caído em um golpe da máfia.
— Golpe nada, você é a única culpada por ser tão vadia e puta de velho e cachorro.
Ela cuspiu seu veneno e eu soltei a mão com toda a minha força. Foi um tapa de deixar as marcas dos meus dedos na sua cara. Ela veio alucinada para cima de mim, e o tempo fechou.
Meus pais tentaram intervir na briga e conseguiram, em certa medida, pois os insultos ainda eram proferidos em altíssimos decibéis. Entretanto, o grito mais alto foi o da minha mãe; só tive tempo de notar um monstro vermelho se aproximando rapidamente diante do nosso para-brisa, grande e veloz como uma locomotiva desgovernada. A colisão ocorreu imediatamente, e perdi a consciência logo depois.

Continua.

Última revisão em: 03/04/2026.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Almas Gêmeas - Parte 26

<< AO RETIRAR MEU Cartão SD do esconderijo e correr para mostrar as imagens para meus pais, minha irmã comprometeria o plano que eu e Roberto havíamos elaborado.


— Espera, Gi, me ouve, pelo amor de Deus! — exclamei, angustiada, correndo atrás dela. 

Quando a alcancei, já era tarde demais. Ela estava no quarto dos meus pais, chorando como se fosse a vítima, e deu o celular para eles.

Permaneci em silêncio, envergonhada, parada no batente da porta, ponderando o quanto da história seria seguro compartilhar com a família naquele momento.


Assim que meu pai viu as primeiras imagens eróticas e surreais, passei a ser julgada e condenada em uma reunião familiar improvisada e bastante tensa. Precisei abrir o jogo antes do previsto e revelar que fui chantageada, ameaçada e virei escrava do ateliê.

— Todos nós somos, de alguma maneira, vítimas da administração do instituto — desabafei.

Pedi para conversar a sós com meus pais, pois o assunto seria pesado demais para a garota pré-adolescente. Para mim, já era inimaginável. Minha mãe mandou a Giovana aguardar na varanda, enquanto a gente conversava no interior da casa. A caçula foi a contragosto, pisando duro e resmungando, após seu Pedro reforçar a ordem. 

Comecei de forma direta, sem rodeios, expondo os abusos sofridos, dos quais o tio Agenor estava ciente de tudo. Inclusive, até participava usando uma máscara e hábito com capuz, ocultando-o. Descrevi os casos ocorridos e forneci detalhes.

Meu pai, incrédulo, parecia não querer aceitar a conivência do seu tio. Muito menos sua participação nos abusos que eu era forçada a suportar. Desconsiderando os fatos por mim relatados, ele tentava atribuir a culpa apenas ao mestre Vilânio, afirmando que denunciaria o artista à polícia.

Com uma expressão combinando preocupação e desencanto, minha mãe o encarou. Ela, assim como eu, deveria estar ciente, ou ao menos desconfiar, de que a polícia local não resolveria nada. Isso ocorria devido a estarmos lidando com uma máfia que incluía policiais e políticos, os quais protegiam e encobriam toda a corrupção presente na cidade e nos municípios vizinhos. Era um grupo muito poderoso. 


Apesar da tentação de mencionar as outras provas, contive o impulso, pois ainda não era o momento de divulgar a existência do HD com mais de 200 gigas de imagens incriminadoras, que, felizmente, estava fora do alcance dos bandidos. Entretanto, descrevi em detalhes a sequência das cenas surreais ocorridas na “sala secreta”. Em seguida, deixei-os perplexos ao mencionar a mansão, onde identifiquei minha mãe despida e sendo tocada por duas mulheres.

Ela tentou negar, dizendo que eu teria me enganado.

— Mesmo com a máscara e peruca, mamãe, eu a reconheceria em qualquer lugar do mundo, pelas suas covinhas de Vênus acima da cintura, iguaizinhas às minhas e às da Giovana. Eu tive certeza absoluta ao ver claramente a sua marca de nascença em forma de lua, localizada próxima ao sovaco.

Os minutos seguintes foram ainda mais complicados. O impacto foi forte; minha mãe ficou aos prantos e não segurou o vômito. Meu pai jurou nunca ter suspeitado da minha condição de escrava sexual do instituto. A situação da minha mãe já era um fardo quase impossível de carregar, comentou, cabisbaixo. E jamais imaginou que aquelas pessoas seriam capazes de tamanho grau de aberração, pois as fotos e os relatos feitos por mim eram de uma atrocidade doentia e abominável. Meus pais juraram nunca terem assistido, muito menos participado, de rituais como os que eu descrevi, ocorridos nas salas secretas. As seções deles eram orgias e trocas de casais. Estava muito distante das seções de abuso em que eu fui vítima. 


Ainda assim, seu Pedro continuava negando que seu tio era um ser abominável.

— Vou ligar para ele — disse. 

— Pelo amor de Deus, papai, não faça isso! 

Tentei explicar a gravidade da posse daquelas imagens. 

— Ninguém pode ter acesso a elas; nem eu, a protagonista dos ensaios, tenho permissão para assistir. Eu roubei essas imagens e quebrei um pacto de confidencialidade assinado em meu primeiro dia no ateliê. 

— Esse contrato não tem validade nenhuma, ainda mais depois disso — esbravejou, apontando para o celular. 

— Eu sei, mas são eles que fazem as leis. Ameaçaram destruir não só a mim, mas toda a nossa família. Acredite, papai, são pessoas muito ruins e com poder para isso. 

— Ouça sua filha, amor, a gente sabe do que eles são capazes — implorava minha mãe, aos prantos. 

O homem transtornado parecia fora da realidade e sem noção do perigo; não ouviu a mim e à minha mãe alertando sobre o risco iminente. Ainda assim, o infeliz cometeu a besteira de ligar para o seu tio.

— Vou marcar um encontro urgente para poder conversar com ele — informou. 

Eu estava desesperada com essa ideia idiota. Óbvio que daria merda essa porra, pensei e olhei, desacorçoada, para a dona Lúcia Helena. O olhar dela parecia revelar o mesmo. 

— Deveríamos procurar a polícia, mas longe daqui, de preferência, a Polícia Federal em São Paulo — falei como último intento. 

Meu pai achou um exagero, disse que resolveria ali mesmo, à sua maneira. 

Pensei em revelar o roubo dos equipamentos, mas desisti; seu Pedro estava irredutível. Seria até melhor não tomarem ciência de nada; poderão negar com convicção quando a bomba explodir, pensei. Quanto a mim, direi que aproveitei um raro momento de descuido do mestre Vilânio para copiar as imagens do seu notebook.

Lamentavelmente, as imagens do tio Agenor não revelam sua identidade, em razão da sua máscara e do corpo oculto pelo hábito. Coroa esperto. 

Quando se tornou impossível demovê-lo da infeliz ideia de ligar, mamãe insistiu para que ele acionasse o viva-voz. 

Papai ficou possesso durante a ligação, pois o homem deu evasivas quando ficou sabendo que o assunto da reunião seria sobre supostos abusos sofridos por mim no ateliê.

—  Sua filha está ficando louca; jamais aconteceria algo dessa natureza com alunos do instituto — vociferou o líder religioso.

Seu Pedro cometeu a besteira-mor ao dizer: 

— Eu vi as fotos do acontecido, tio.

Eu e minha mãe ficamos desesperadas, acenando para ele não falar mais nada. O tio Agenor falou que meu pai também estava louco e desligou na cara dele. Não atendeu às ligações seguintes.

— Agora ele sabe que temos imagens comprometedoras. A gente está correndo perigo, pai. 

— É verdade, amor. Eu sempre tive receio de lhe dizer isso: seu tio não é a pessoa correta imaginada por você — disse a mamãe, com uma expressão de medo e abatimento. O homem se afastou calado, cabisbaixo, talvez repassando em pensamento a besteira que fez. Também deveria estar avaliando a sua relação com o tio e os acontecimentos durante o período de vivência no Vale do Paraíba. Minha mãe me abraçou, chorando, e pediu perdão por não ter considerado que as mudanças em meu comportamento não eram devidas a problemas de adolescentes, mas a algo mais grave acontecendo comigo. 

— Como fui covarde e irresponsável. Eu devia ter imaginado até onde chegaria tudo isso. 

Tentei amenizar sua dor, dizendo que ela também era uma vítima desse universo corrompido, assim como o meu pai.



Tio Armando.

Se minha mãe soubesse que o tio Agenor não era o único aliciador da família, ela ficaria muito pior. Seu irmão, tio Armando, compartilhava comigo um passado e um presente de intimidades. Nunca fui comportadinha; namorar sempre foi meu passatempo favorito, especialmente quando fazia por vingança, pois sempre odiei minha tia Neide. Garanto que a recíproca é verdadeira.


A última vez em que rolou intimidades com ele foi no final do ano passado. Eu ainda não havia iniciado o treinamento remunerado; só fui admitida no ateliê em maio. Também não era mais inocente, tampouco virgem.


Naquele dia, meu tio, sua esposa e seus dois filhos viriam celebrar a passagem do ano conosco. Meus pais foram abrir a loja no último dia do ano e voltariam somente às 18h. A espertinha da Giovana foi com eles para evitar o contato com a tia Neide. Ela também detesta a dona. Fiquei sozinha, esperando o pessoal e preparando o almoço para a turma. No entanto, quando o relógio marcou 11h, apenas o homem e o menino mais velho, Vitor, de 8 anos, chegaram. Meu tio contou que, em cima da hora, a mulher disse que os pais dela os aguardavam para a virada do ano. Ele decidiu vir para a minha casa, assim como as crianças, porque queriam ir à cachoeira. A bruaca não permitiu que o caçula de três anos viesse.

Por fim, seria muito melhor sem ela.


Tio Armando não perdia a oportunidade de assediar-me quando o garoto nos deixava a sós. Aquele olhar conquistador e as atitudes ousadas sabiam me convencer. Rolaram beijos, mãos bobas pelo corpo e seios sugados. Tínhamos um longo histórico de perversão; eu achava divertido e gostava de provocá-lo. Houve vezes em que o irresponsável esteve prestes a consumar o ato e eu, bobinha e mesmo morrendo de medo, não me empenhei o bastante para impedi-lo. Por sorte, sempre havia um anjo da guarda de plantão e algo incomum ocorria exatamente no momento, frustrando as expectativas. Ou seja, por mais que eu tenha dado mole, ele ainda não conseguiu me penetrar.


Pouco depois do almoço, o Vitor se enturmou com a pivetada da rua, jogando uma pelada na porta de casa. Foi a oportunidade que o titio aguardava. Eu estava trocando a roupa de cama do quarto deles. O predador não perdeu tempo, chegou me abraçando por trás, me encoxando e dizendo bobagens em meu ouvido.

— Esquece isso daí, lindinha; ou vou enlouquecer de vontade de transar com você.

Eu entrei fácil demais no seu jogo, pois queria provar que não era mais bobinha e nem totalmente passiva.

Já no primeiro beijo, rolou muita sacanagem no roçar dos corpos, e meu top foi praticamente arrancado pelo homem que fez uma festa com meus seios. Na sequência, ficou nu da cintura para baixo e alisou o membro grande e ereto, fazendo sua expressão de macho predador. Ainda tentou demonstrar carinho, porém, da única maneira que sabia: sendo rude e autoritário.

— Vem, minha lindinha, baixa aqui e chupa meu pau!

Estava acostumada com sua insensibilidade. O sujeito permaneceu em pé. Ajoelhei-me e chupei como ele havia me ensinado em São Paulo. Quando ele percebeu que eu já conseguia engolir tudo, segurou em meu rabo de cavalo e iniciou um vai e vem, enfiando fundo na minha garganta, como se estivesse fodendo com a minha boca. Meu peito ficou todo molhado com a quantidade de baba que salivei.

Instantes após, colocou-me na posição de quatro em cima da cama. Depois de tirar meu short e calcinha, apertou e bateu na minha bunda e começou a me fazer sexo oral com chupadas vorazes e língua nervosa serpenteando em minha vagina. Foi impossível conter meus gritinhos de tesão. Entretanto, estava morrendo de medo de que o garoto entrasse correndo atrás do pai.


O momento mais tenso chegou. Senti um calafrio quando meu tio deu a entender que era hora da consumação.

Se você abre a porta do inferno, tem que entrar, né? Pensei e não tentei resistir quando a cabeça do pênis começou a roçar minha vagina; porém, sabia que seria uma parada difícil.

Aquela bolota passou com dificuldade pelo espaço apertado, provocando um gemido de dor devido ao volume excessivo. Ele não forçou, retirou, lubrificou um pouco mais com saliva, deu um tapa leve na minha bunda fazendo gracinhas e introduziu o negócio. Caralho! Doeu, mas foi suportável, e a satisfação foi maior, sentindo-o deslizar devagar até ocupar todo o meu interior.


A pegada inicial foi deliciosa, porém, a suavidade virou perversidade e o sádico demonstrou sentir prazer ao espancar a minha bunda. Conforme o bruto judiava de mim, com estocadas e tabefes, eu perdia o controle dos gritinhos e gemidos que, em parte, eram de prazer.


Passado algum tempo, ele tirou, deixou-me de frente e arreganhada para ele, colocou o travesseiro sob o meu quadril e ajoelhou-se no interior do meu vão.

— Você vai gostar disso, borboletinha — disse e deu uma piscadinha sacana.

Meu tio introduziu novamente, segurou em minha cintura ao iniciar as estocadas. Agora o seu olhar de tarado observava cada careta ou sorriso maroto que eu dava; era conforme a intensidade dos golpes aplicados. Ah! Eu estava curtindo de montão aquela foda. Ficaria ali o resto da tarde, se fosse possível.


Em certo momento, com minhas pernas apoiadas sobre os seus ombros, o meu gozo chegou em ondas e revirei os olhos, saboreando meu orgasmo. Só então caiu a ficha…

— Não goza dentro, tio, por favor! — falei, dramatizando, mas sem parar de mexer os quadris.

Ele não disse nada, não me soltou e nem parou com os golpes vigorosos. Aquele instante foi irado demais, fui agraciada com um orgasmo múltiplo e, ao chegar ao clímax, dei um foda-se, gemendo como uma putinha; não me importava caso fosse inundada pelo seu sêmen.

As feições do homem indicavam que ele estava na iminência de gozar; entreguei-me ao momento. É agora, pensei, desejando receber sua porra e apenas focando no prazer momentâneo. Porém, seu pênis deslizou suave para fora.

Quase gritei implorando: “Puta que pariu! Goza dentro, tio!”.

Ele continuou com uma punheta e ejaculou. O primeiro jato foi o mais forte, atingindo o canto da minha boca; os seguintes foram mais volumosos e caíram em meu peito. O safado passou o dedo arrastando a porra em meu rosto para dentro da minha boca. Não me fiz de rogada, chupei seu dedo melado sem a menor cerimônia e ainda chupei o seu pau.

— Sua safadinha! Você ficou bem espertinha, né?

Apenas sorri, orgulhosa do meu desempenho, peguei minhas roupas e fui correndo para o banheiro, pois já tinha abusado da sorte. Foi um milagre que o moleque ainda não tivesse retornado da rua dizendo: "Tô com fome!"


Aquele ano e a sexta-feira terminariam em oito horas, mas ainda teríamos mais dois dias inteiros para desafiar o perigo. Contarei em outro momento.


*** 


Retornemos ao meu drama familiar, que estava só começando.


Quando papai retornou para a sala, eu continuava conversando com a minha mãe a respeito do que poderia acontecer conosco dali em diante. O homem pareceu-me completamente perturbado.

— Estou farto de tudo isso; juro que vou matar aquele bando de bandidos.

Nunca vi o meu pai tão nervoso. Mas como ele pretendia fazer aquilo sozinho, contra pessoas tão poderosas?


Continua.


Última revisão em: 03/04/2026.