Meu telefone tocou na manhã daquele domingo; era meu chefe solicitando que eu fizesse parte, junto com outras meninas, de uma festa naquela noite. Ele atenderia ao pedido de um cliente especial.
— O cachê desta noite é muito bom, Mila; cobrei bem do cliente.
Ele sempre falava isso, tentando despertar ou aumentar nosso interesse quando precisava muito de nós. Em seu mundo, o dinheiro movia todas as coisas. Ele não deixava de ter um pouco de razão, porém, eu ainda tomava algumas decisões sem levar o capital em consideração.
Eu já sabia do lance daquela noite, mas, a princípio, fui excluída do grupinho de meninas que participaria. Se agora ele estava solicitando a minha presença e até pediu por favor, é porque ele não tinha garotas suficientes para atendê-lo. Mesmo estando receosa de ir ao lugar onde seria o evento, ainda assim atendi seu pedido. Não queria fechar as portas; a gente nunca sabe como será o dia de amanhã. O cachê seria maior que o habitual, visto que acompanharíamos senhores refinados em uma festa que aconteceria em uma boate famosa por rolar eventos fechados a um público exclusivo e privilegiado.
Dois homens, eu e mais seis meninas da agência seguimos até o inferninho badalado. O proprietário era um cara famoso nas altas rodas, tanto quanto era no submundo; seu apelido era God. Em conversas reservadas, diziam que ele decidia quem vivia e quem morria na sua comunidade.
A maioria dos convidados (homens) era proveniente de bairros nobres e com um poder aquisitivo elevado. Todos, de alguma forma, tinham uma ligação um pouco mais estreita com o God; ou eram negócios ilícitos em comum ou o "rabo preso" por algum motivo. Quanto às meninas... A maioria das meninas eram garotas de programa, mas também havia as "peguetes" dos caras. Ninguém levava a esposa ou namorada, em razão de a festa ser um vale-tudo. A balada privada acontecia com frequência e, a cada vez, recebia um nome novo inventado pelo dono do pedaço. Aquele foi batizado com o “singelo” nome de "Princesas Pistoleiras".
Eu ainda estava bebendo o meu primeiro drink quando aconteceu algo que eu temia: o irmão mais novo do God se engraçou comigo. Fui aconselhada pelas meninas a ser gentil e aceitar o convite do cara. Ele pediu, ou melhor, ele exigiu que o acompanhasse até um dos quartos situados nos fundos daquele oásis da periferia. Fiquei temerosa; nós, meninas, já sabíamos da sua fama de doidão e ligação com o narcotráfico. E também por ser violento com mulheres sem precisar de motivos significativos. Eu não daria motivo nenhum; meu desejo era fazer o meu trabalho direitinho e sair inteira daquele lugar. Não seria apenas a profissional, seria a sua cadelinha se fosse preciso. Então fui com o homem.
Após ele fechar a porta e ficarmos a sós naquela suíte, eu não senti mais medo; a adrenalina de situações de risco sempre mexe com meus hormônios. Tentei curtir aquele momento e relaxei dentro do possível. Relaxei ainda mais quando vi aquela cadeira erótica tipo o "S" do Senna. Pirei grandão; desde sempre desejei transar em um bagulho daquele. Havia uma garrafa de uísque, copos e gelo em uma mesinha; contudo, o apressado quis o sexo em primeiro lugar.
Foram segundos para ele deixar-me pelada e melada com sua baba em minha boceta e seios. Só depois ele se despiu e invertemos a posição. Ele deitou na longa e curva cadeira; eu deitei com meu tronco sobre suas pernas. Fui subindo devagar, serpenteando meu corpo e deslizando meus seios por suas coxas enquanto o mirava com minha carinha mais safada e meu sorriso de vadia. Brinquei com seu membro em minha boca por algum tempo. Depois o apertei entre meus seios; todavia, o bruto ficou impaciente e mandou-me subir logo em cima dele. Minha escalada foi acelerada por um puxão nada delicado que ele me deu. Com seus lábios quase colados aos meus, o cara me chamou de putinha safada, agarrou meus cabelos e me beijou com ferocidade. Língua e dentes judiaram da minha boca; senti meu lábio inferior sangrar com suas mordidas animalescas. Levantei o tronco e direcionei seu membro em minha vagina, rebolando, soltando meu corpo e o senti ir cada vez mais fundo em minhas entranhas. Ele agarrou meus seios, apertando-os e espremendo-os em suas mãos... Ahh! Gemi com a mistura de dor e tesão "quicando" sobre seu pinto em uma cavalgada alucinante.
Meu peito estava todo vermelho e dolorido quando ele finalmente gozou; só então parou de esmagar meus seios e de dar tapas na minha bunda e pernas, que também já estavam doloridas. Eu acabara de gozar pela segunda vez, sentia dores em meu corpo, mas eram desconfortos que proporcionaram prazer devido aos momentos de pegação que acabara de viver naquela cadeira. Fiquei imaginando as várias posições que ainda poderíamos explorar naquela obra de arte.
De repente, um barulho de carros chegando rápido e freando bruscamente. No mesmo instante, ele levantou-se apressado e pediu para eu servir um uísque para nós enquanto ele ia urinar. Um minuto depois, eu ouvi um barulho de vidro quebrando no banheiro; era como se alguém tivesse atirado algo grande na janela e a destruído. Antes que eu perguntasse o que havia acontecido, quase desmaiei com um estrondo enorme e vi a porta do quarto arrebentada por policiais que invadiram o quarto gritando todos ao mesmo tempo:
— NÃO SE MOVA! MOSTRE AS MÃOS!
Fiquei aterrorizada ao ver aquele monte de homens armados. Eu estava nua e não saí do lugar. No susto, larguei a garrafa do Jack Daniels e o copo com uma dose dupla do líquido precioso. Vi tudo movendo-se lentamente: garrafa e copo se espatifando ao chegar ao chão, um homem todo de preto levantou o braço que empunhava uma arma e mirou em minha direção. Era uma sensação estranha, como se eu estivesse assistindo a um filme em câmera lenta. A velocidade voltou ao normal quando ele ficou cara a cara comigo e vislumbrei o buraco daquele cano enorme apontando para minha testa. Ergui os braços, tremendo de medo, e murmurei quase sem voz:
— Não atira, moço.
Policiais correram para o interior do banheiro e gritaram sobre alguém ter saltado pela janela. Os homens da lei vasculharam a roupa deixada pelo fugitivo e acharam uma arma, munição, uma quantidade reduzida de drogas e uma quantia considerável em dinheiro.
Após dar uma explicação breve sobre quem eu era, o motivo de estar ali e qual seria meu envolvimento com o fujão, mandaram eu me vestir. Continuei respondendo às suas perguntas, tentando fazê-los entender que eu era apenas uma garota de programa e só estava ali fazendo o meu trabalho. Repeti inúmeras vezes que não sabia nada sobre o cara, a arma e, muito menos, sobre a droga. Fiquei um tempão me explicando para um policial; pelas suas atitudes, deveria ser o chefe. Um outro cara ficava me ofendendo.
Fui liberada pelo policial que parecia o chefe; dei graças aos céus. Mais tarde fiquei sabendo que ele era um tenente do Grupo de Operações Especiais (GOE) e vieram cumprir um mandado de busca e apreensão contra o irmão do God; o cara era suspeito de homicídio. No entanto, a operação de captura não deu certo, já que o peladão conseguiu se safar — é sangue ruim mesmo.
Os policiais não acharam mais nada de ilegal naquela festa, só gente bêbada e disposta a liberar uma grana para continuar se divertindo sexualmente. O susto foi enorme, mas a diversão foi até de madrugada.
***
Ouvi sons de sirenes tocando em minha cabeça… Jesus, que alívio ao perceber que estava em minha cama; o barulho era o meu interfone tocando. Estava desmaiando de sono e mal conseguia levantar. Era manhã de segunda-feira, havia chegado da festa há menos de três horas e precisava dormir pelo menos mais cinco. Ainda assim atendi: era o porteiro comunicando sobre um motoboy e uma encomenda esperando por mim na portaria. Eu precisava descer, posto que o rapaz tinha ordens de entregar apenas para mim.
Voltei da portaria com uma caixa leve, de cerca de 50 cm e sem remetente. O motoboy também não disse quem a enviou; ele só faz a entrega. Abri o bagulho com medinho. “Vai que tem uma bomba dentro.” Pensei, sorrindo de nervoso.
Continha uma pasta de plástico e dentro dela havia uma documentação e um bilhete dizendo:
'Mila, perdoe a minha maneira rude de ser e meu modo estranho de gostar. Agradeço os momentos únicos de alegrias e prazeres proporcionados por você nos meses de nossa convivência. A cada encontro, o seu carinho fez eu esquecer temporariamente o mundo de hipocrisias em que estava atolado.
Antecipei minha partida; não era mais seguro permanecer no Brasil, mas você estará segura, pois não tem nenhum envolvimento com meus negócios ou com minha família. Alguém invisível estará cuidando de sua segurança por algum tempo; quanto a mim, permanecerei muito distante, talvez para sempre.'
Eu, que já estava apavorada, depois de ler aquelas frases, fiquei aterrorizada. Continuei lendo:
'Você ainda é muito jovem; tente esquecer esta história e recomece sua vida. Acredito que você já tenha aberto a valise que foi retirada por sua amiga do guarda-volumes da rodoviária. Use com inteligência e muita discrição os 250 mil dólares; não voltarei para pegar, o dinheiro agora é seu, assim como a residência em que mora. Siga as instruções anexas para formalizar a posse do imóvel.
Recomendo não deixar que ninguém saiba a procedência do dinheiro e nem que eu lhe dei o apartamento. E, por favor, queime este bilhete após tê-lo lido e não comente nem com pessoas de sua inteira confiança que teve contato comigo após aquele sábado em Camboriú. Seja feliz, menina.
Beijos com amor e carinho.
Matheus.'
"Caraca! Não era apenas nóia minha suspeitar que estava sendo seguida."
Só fiquei mais apavorada depois da leitura. Verifiquei os documentos da pasta… Caraca! Era mesmo a transferência do apartamento para o meu nome; bastaria que eu aceitasse o presente. Junto tinha instruções e um endereço para que eu fosse resolver a parada. Esse homem realmente surpreendeu-me; daria pulos de alegria se minhas pernas não estivessem tão trêmulas.
As datas impressas nos documentos eram de um dia após o sumiço dele. O danado esteve em Campinas na segunda-feira.
Fui até a cozinha e coloquei o bilhete em uma vasilha de barro, acendi o fósforo; contudo, fiquei pensando em guardar aquilo, pois serviria como prova de que recebi o imóvel e os dólares como doação e por livre e espontânea vontade do Matheus. Ai! A chama do fósforo alcançou meus dedos; joguei a porcaria longe. Enquanto deixava a água da torneira escorrer sobre meus dedinhos queimados, eu refleti melhor sobre o bilhete; a seguir, o queimei.
Consegui marcar com o advogado indicado pelo Matheus (em seu bilhete) na tarde daquele mesmo dia. Fui até seu escritório e, após deixar-me inteirada de tudo, ele acompanhou-me até o cartório.
Uhuuu! O apartamento agora era meu, nem acreditei. Fiquei tão feliz que teria transado no carro com o doutor como agradecimento, caso ele tivesse demonstrado interesse.
Eu já sabia que os dólares eram verdadeiros e o próximo passo era esconder minha fortuna, usando-a aos poucos para não chamar atenção. O esconderijo da minha fortuna seria em meu apartamento, e eu já havia planejado como: saí para fazer compras e voltei com um cofre; em seguida, liguei para o seu Tobias, um marceneiro e faz-tudo que conheci anteriormente.
Na manhã seguinte, ele saiu cedinho de Brotas e veio atender meu pedido. O conheci quando ele prestava serviços para a imobiliária em que trabalhei algum tempo atrás naquela cidade. Era um senhor simples; eu confiava nele e em sua discrição. Ele deixaria o cofre invisível em algum lugar do meu imóvel que acabara de ganhar.
O homem trabalhou duro. Ao final do dia, o serviço estava feito e superou minhas expectativas, tanto que lhe dei uma gratificação generosa quando paguei pelo serviço. Ele se foi no táxi fretado, que fora requisitado por mim para levá-lo para casa.
Seu Tobias fez um fundo falso em um dos meus móveis e instalou o cofre Multi-lock; um modelo cujo fecho só abre quando códigos são digitados em seu teclado. O mesmo foi parafusado no piso com buchas especiais, resistentes e enormes. Ou seja, mesmo se alguém descobrisse "minha caixa-forte", não conseguiria abrir ou retirar a coisa do local.
O dinheiro estava seguro. Já havia ligado para meu chefe e passaria na agência ainda naquela semana para encerrarmos nosso vínculo.
Deixaria a Yasmin responsável pelos pagamentos de serviços e taxas referentes ao meu apartamento; eu depositaria o dinheiro na conta dela sempre que fosse necessário.
Após resolver os detalhes finais com minhas relações profissionais e algumas questões emocionais, eu planejava me afastar para Miami por um tempo, pois estava muito apreensiva com o que poderia acontecer comigo, caso permanecesse aqui.
Continua…
Última revisão em: 17/05/2026.

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